Primeiro a gente vive. Pouco primeiro. Depois a gente comenta a vida. Muito depois.







segunda-feira, 7 de novembro de 2011

nonada


Se
Não
é mundo
não
é fim do mundo.
Não
É coisa velha
Não
É mais
Não
Mas
Tudo sim
Não
É quase certo
Não
É partida
Não
É aquilo que
Não
É aquilo.
É isto:

Sou


Eu sou
O que sôo
sou
O que suo
Sou
O que dôo
Sôo
O que fôdo
Dôo
O que sou
E o que sôo
Sou o que beijo.
O Que mastigo.
[Aquela carne
Ensangüentada
Da vida.]
Sou o que
Estou.
Não rimo
O suor da vida
Com o frescor
Daquilo que
Nem desejo.

O livro


Abro o livro
Leio
Releio
Ele é ainda maior que o verso e a métrica desproporcional.
Mas nunca será o mesmo.
Nem Demian, nem Sinclair,
Terão o mesmo cheiro de passarinho morto.
Apareceu na bolsa
O odor
O cheiro está impregnado
Na minha memória de devaneio.
A bolsa foi lavada
Joice já não mata passarinhos.
[Mata dragões]
Mas o livro
Ainda maltrata.
E o cheiro
vaga

A ditadura da alienação


O povo quando grita
Grita?
O chato quando fala
Fala?
O digno quando
Quando?
Aquilo que sai e
Emite o vestido novo
Novo?
A mudança sempre
Come
O começo
Começo?

A pergunta quando
Sai clicherizada
Nem esculpida
Nem censurada
Meio rebelde
Às vezes escapa
Às vezes domada
É ditada por dedos
Que gritam:
É a ditadura da
Alienação.
A pergunta
Não rima.
Nem razão.
Não combina.
Por que viver?

Porque
às vezes
dá choque
morrer.

O jogo e a Barata


GOL. Eles correram de volta. A tática. O jogo. A vaga não decidida deixava emocionante o empate entre os gigantes em terra de alheio. Alheia era Barata. Em pleno dois a dois, Ela atravessou a linha de escanteio. E o jogo jogado com bola rolando no estádio. Grandes fortes magros pesados leves feios bonitos. Pés. Eles tinham pés. Bastasse uma sensação de morte, todos se refugiariam no próprio medo. Ela não. O instinto era a travessia. Não era passagem de fases, mudanças de personalidade, opiniões, nem sequer ideologia. Era apenas travessia do campo com bola rolando e pés espalmados no (cai) chão da Barata. Barata vida, desprezo. Ali, esperando o estremecer do sistema nervoso. Avança. Os pés passam correm chocam. UH! Está no meio do alvoroço e malandra, espera. O garoto, que vê a barata Barata, grita: “-TOCA A BOLA!”. A dama, que teme a coisa, suspira: “-ai!”. Outros vêem, mas outros são outras visões e outras histórias. Treme. Continua. Os pés vêm. Continua, firme. O pé desvia. Erra. Toca. O chute a morte. O garoto vibra ”-GOL”. A moça lamenta-se. A Barata, que nem sorri nem chora, nem faz nem desfaz, nem vibra nem lamenta, nem ganha nem perde, nem classe nem creme, nem chupa nem come, é liberta desse mundo de competições. Choro. A velha grita: “NINGUÉM VIU A BARATA?”. Entendo a indignação da sábia. Barata também é gente. Ou não?

sábado, 3 de setembro de 2011

Rima podre


Só tem rima
quando a fome
reina
quando a mão
nos deixa
quando o palco
fecha
quando o barco
enche
quando o saco
estoura.

Só tem rima
quando o chato
beija
quanto mal esteja
manta impregnada
rima feia
mal propagada.
Aquilo que é humano
sem graça.
Aquela rima
frouxa
folgada
rima quando a vida
está solta
suja
desfigurada
sem aquele poste,
aquela escada.

E a mão ousa
levantar-se.
e a mão ousa
encher-se
de sangue.
E ela bate
no peito
do corpo
podre e soa
o enxofre
escarrando,
tentando amar:
"então o poema não precisa rimar."

O destino dos corvos


Carcará era ficha. Este comia o que nascia do buraco negro. Humano (possivelmente), ria de sua desgraça. A poesia que ousava sair era massacrada pelas mãos sujas daquele que sempre foi atingido. O grito do acaso, ou da sorte, ou dele mesmo, soava longe. A peregrinação dentro das entranhas universais, sinapses e vias curvas sangrentas era, provavelmente, cansativa e nostálgica. Gostava era de ficar sentado naquele banco de rio, olhando o pôr-do-sol, ou aurora, ou nada. E nem tinha opção.

A gota caiu. As lágrimas dos deuses, ou água mesmo, caíram lavandobatendoescarrando na face do atingido. Nem perguntou seu nome. Nem perguntasse pois, talvez, nem lembrasse. Depois do passado, o abrigo o chamou, e agasalhou-lhe.
Não. Ninguém o chamava, dava de comer, ou sorria para o ativista. Depois do passado, nada importava, nem pro próprio conto deste em que até o nome foge à boca. Sem qualidades ou defeitos. E nem quisesse importar, nem mesmo a ele. Como saber quais eram?

O fato: O rio chamou-lhe pelo nome. Não houve resistência. O carro, difícil de ver, gritou sua melhor qualidade. Não hesitou. Na sacada, o chão abriu seus braços e deu-lhe a solução. E onde anda esta alma, cujo nome inanimado soa pelos carros, ruas e riachos?